quarta-feira, 26 de junho de 2013
BEM, JUSTIÇA E TOLERÂNCIA
Por Luís Roberto Barroso
Creio na justiça, apesar de saber que ela tarda, às vezes falha e tem uma queda pelos mais ricos. Mas a sociedade precisa de um sistema adequado
Hoje, ao assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, mudo de lado do balcão. Deixo de ser um professor e advogado que há muitos anos participa do debate público de ideias para me tornar juiz.
Considero ser um direito da sociedade saber um pouco mais sobre a minha visão de mundo. Apresento-me, assim, mais por dever do que por desejo, tendo em mente a advertência severa de Ortega y Gasset: “Entre o querer ser e o crer que já se é, vai a distância entre o sublime e o ridículo”.
Filosoficamente, creio no bem, na justiça e na tolerância. Creio no bem como uma energia positiva que vem desde o início dos tempos. Trata-se da força propulsora do processo civilizatório, que nos levou de uma época de aspereza, sacrifícios humanos e tiranias diversas para a era da democracia e dos direitos humanos.
Creio na justiça, apesar de saber que ela tarda, às vezes falha e tem uma queda pelos mais ricos. Mas toda sociedade precisa de um sistema adequado de preservação de direitos, imposição de deveres e distribuição de riquezas.
Creio, por fim, na tolerância. O mundo é marcado pelo pluralismo e pela diversidade: racial, sexual, religiosa, política. A verdade não tem dono nem existe uma fórmula única para a vida boa.
Politicamente, creio em ensino público de qualidade, na igualdade essencial das pessoas e na livre-iniciativa. Creio que ensino público de qualidade até o final do nível médio é a melhor coisa que um país pode fazer por seus filhos.
Creio, também, na igualdade essencial das pessoas, apesar das diferenças. O papel do Estado é o de promover a distribuição adequada de riqueza e de poder para que todos tenham paridade de condições no ponto de partida da vida.
Ah, sim: e todo trabalho, desde o mais humilde, deve trazer, junto com o suor, o pão e a dignidade.
Por fim, creio na livre-iniciativa, no empreendedorismo e na inovação como as melhores formas de geração de riquezas.
Trata-se de uma constatação e não de uma preferência.
Do ponto de vista institucional, creio que o constitucionalismo democrático foi a ideologia vitoriosa do século 20. Constitucionalismo significa Estado de Direito, poder limitado, respeito aos direitos fundamentais. Democracia significa soberania popular, governo representativo, vontade da maioria.
Da soma dos dois surge o arranjo institucional que proporciona o governo do povo, assegurados os direitos fundamentais de todos e as regras do jogo democrático.
Em suma: creio no bem, na justiça e na tolerância como valores filosóficos essenciais. Creio na educação, na igualdade, no trabalho e na livre-iniciativa como valores políticos fundamentais. E no constitucionalismo democrático como forma institucional ideal.
Essa a minha fé racional. Procurei expô-la do modo simples, claro e autêntico. Espero ser abençoado para continuar fiel a ela e a mim mesmo no Supremo Tribunal Federal.
LUÍS ROBERTO BARROSO, 55, é professor de direito constitucional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Uma breve história da luta da grande mídia contra os interesses nacionais
Em 1957, uma CPI da
Câmara dos Deputados, comprovou que “O Estado de São Paulo”, “O Globo” e
“Correio da Manhã” foram remunerados pela publicidade estrangeira para moverem
campanhas contra a nacionalização do petróleo. Em momentos cruciais para o país
se inclinaram para o golpismo e a traição aos interesses nacionais: contra
Getúlio, a Petrobrás, JK, contra Jango, apoiando a ditadura, Collor, FHC e suas
privatizações, atacando Lula.
Por Leandro Severo
Em 1941, enquanto milhões de homens e mulheres derramavam
seu sangue pela liberdade nos campos da Europa e da União Soviética, a elite
dos círculos financeiros dos Estados Unidos já traçava seus planos para o
pós-guerra. Como afirmou Nelson Rockefeller, filho do magnata do petróleo John
D. Rockefeller, em memorando que apresentava sua visão ao presidente Roosevelt:
“Independente do resultado da guerra, com uma vitória alemã ou aliada, os
Estados Unidos devem proteger sua posição internacional através do uso de meios
econômicos que sejam competitivamente eficazes...” (COLBY, p.127, 1998). Seu
objetivo: o domínio do comércio mundial, através da ocupação dos mercados e da
posse das principais fontes de matéria-prima. Anos mais tarde o ex-secretário
de imprensa do Congresso americano, Gerald Colby, sentenciava sobre
Rockefeller: “no esforço para extrair os recursos mais estratégicos da América
Latina com menores custos, ele não poupava meios” (COLBY, p.181, 1998).
Neste mesmo ano, Henry Luce, editor e proprietário de um complexo
de comunicações que tinha entre seus títulos as revistas Time, Life e Fortune,
convocou os norte-americanos a “aceitar de todo o coração nosso dever e
oportunidade, como a nação mais poderosa do mundo, o pleno impacto de nossa
influência para objetivos que consideremos convenientes e por meios que
julguemos apropriados” (SCHILLER, p.11, 1976). Ele percebeu, com clareza, que a
união do poder econômico com o controle da informação seria a questão central
para a formação da opinião pública, a nova essência do poder nacional e
internacional.
Evidentemente para que os planos de ocupação econômica pelas
corporações americanas fossem alcançados havia uma batalha a ser vencida: Como
usurpar a independência de nações que lutaram por seus direitos? Como justificar
uma postura imperialista do país que realizou a primeira insurreição
anticolonial?
A resposta a esta pergunta foi dada com rigor pelo
historiador Herbert Schiller: “Existe um poderoso sistema de comunicações para
assegurar nas áreas penetradas, não uma submissão rancorosa, mas sim uma
lealdade de braços abertos, identificando a presença americana com a liberdade
– liberdade de comércio, liberdade de palavra e liberdade de empresa. Em suma,
a florescente cadeia dominante da economia e das finanças americanas utiliza os
meios de comunicação para sua defesa e entrincheiramento onde quer que já
esteja instalada e para sua expansão até lugares onde espera tornar-se ativa”
(SCHILLER, p.13, 1976).
Foi exatamente ao que seu setor de comunicações se dedicou.
Estava com as costas quentes, já que as agências de publicidade americanas
cuidavam das marcas destinadas a substituir as concorrentes europeias arrasadas
pela guerra. O setor industrial dos EUA havia alcançado um vertiginoso aumento
de 450% em seu lucro líquido no período 1940-1945, turbinado pelos contratos de
guerra e subsídios governamentais. Com esta plataforma invadiram a América
Latina e o mundo.
Com o suporte do coordenador de Assuntos Interamericanos
(CIIA), Nelson Rockefeller, mais de mil e duzentos donos de jornais latinos
recebiam, de forma subsidiada, toneladas de papel de imprensa, transportada por
navios americanos. Além disso, milhões de dólares em anúncios publicitários das
maiores corporações eram seletivamente distribuídos. É claro que o papel e a
publicidade não vinham sozinhos, estavam acompanhados de uma verdadeira
enxurrada de matérias, reportagens, entrevistas e releases preparadas pela
divisão de imprensa do Departamento de Estado dos EUA.
A vontade de conquistar as novas “colônias” e ocupar novos
territórios como haviam feito no século anterior, no velho oeste, não tinha
limites. No Brasil, circulava desde 1942, a revista Seleções (do Reader’s
Digest), trazida por Robert Lund, de Nova York. A revista, bem como outras
publicações estrangeiras, pagavam os devidos direitos aduaneiros por se
tratarem de produtos importados, mas solicitou, e foi atendida pelo procurador
da República, Temístocles Cavalcânti, o direito de ser editada e distribuída no
Brasil, com o argumento de ser uma revista sem implicações políticas e limitada
a publicar conteúdos culturais e científicos. Assim começou a tragédia.
Logo chegou o grupo Vision Inc., também de Nova York, com as
revistas Dirigente Industrial, Dirigente Rural, Dirigente Construtor e muitos
outros títulos que vinham repletos de anúncios das corporações industriais. Um
fato bastante ilustrativo foi o da revista brasileira Cruzeiro Internacional,
concorrente da Life International, que apesar de possuir grande circulação,
nunca foi brindada com anúncios, enquanto a concorrente americana anunciava
produtos que, muitas vezes, nem sequer estavam à venda no Brasil.
Ficava claro que os critérios até então estabelecidos para o
mercado publicitário, como tempo de circulação efetiva, eficiência de mensagem e
comprovação de tiragem, de nada adiantavam. O que estava em jogo era muito
maior.
Um papel importantíssimo na ocupação dos novos mercados foi
desempenhado pelas agências de publicidade americanas. McCann-Erickson e J.
Warter Thompson eram as principais e tinham seu trabalho coordenado diretamente
pelo Departamento de Estado. Para se ter uma ideia a McCann-Erickson , nos anos
60, possuía 70 escritórios e empregava 4619 pessoas, em 37 países, já a J.
Warter Thompson tinha 1110 funcionários, somente na sede de Londres. Os Estados
Unidos tinham 46 agências atuando no exterior, com 382 filiais. Destas 21
agências em sociedade com britânicos, 20 com alemães ocidentais e 12 com
franceses. No Brasil atuavam 15 agências, todas elas com instruções
absolutamente claras de quem patrocinar.
No início dos anos 50, Henry Luce, do grupo Time-Life, já
estava luxuosamente instalado em sua nova sede de 70 andares na área mais nobre
de Manhattan, negócio imobiliário que fechou com Nelson Rockefeller e seu amigo
Adolf Berle, embaixador americano no Brasil na época do primeiro golpe contra o
presidente Getúlio Vargas. Luce mantinha fortes relações com os irmãos Cesar e
Victor Civita, ítalo-americanos nascidos em Nova Iorque. Cesar foi para a
Argentina em 1941 onde montou a Editorial Abril, como representante da
companhia Walt Disney, já Victor, em 1950, chega ao Brasil e organiza a Editora
Abril. Neste mesmo período seu filho, Roberto Civita, faz um estágio de um ano
e meio na revista Time, sob a tutela de Luce e logo retorna para ajudar o pai.
Poucos anos depois, o mercado editorial brasileiro está
plenamente ocupado por centenas de publicações que cantavam em prosa e verso o
american way of life. Somente a Abril, financiada amplamente pelas grandes
empresas americanas, edita diversas revistas: Claudia, Quatro Rodas, Capricho,
Intervalo, Manequim, Transporte Moderno, Máquinas e Metais, Química e
Derivados, Contigo, Noiva, Mickey, Pato Donald, Zé Carioca, Almanaque Tio
Patinhas, a Bíblia Mais Bela do Mundo, além de diversos livros escolares.
Em 1957, uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos
Deputados, comprova que “O Estado de São Paulo”, “O Globo” e “Correio da Manhã”
foram remunerados pela publicidade estrangeira para moverem campanhas contra a
nacionalização do petróleo.
Em 1962, o grupo Time-Life encontra seu parceiro ideal para
entrar de vez no principal ramo das comunicações, a Televisão. A recém-fundada
TV Globo, de Roberto Marinho. Era uma estranha sociedade. O capital da Rede
Globo era de 600 milhões de cruzeiros, pouco mais de 200 mil dólares, ao câmbio
da época. O aporte dado “por empréstimo” pela Time-Life era de seis milhões de
dólares e a empresa tinha um capital dez mil vezes maior.
Como denunciou o deputado João Calmon, presidente da Abert
(Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão): “Trata-se de uma
competição irresistível, porque além de receber oito bilhões de cruzeiros em
doze meses, uma média de 700 milhões por mês, a TV Globo recebe do Grupo
Time-Life três filmes de longa metragem por dia – por dia, repito... Só um
‘package’, um pacote de três filmes diários durante o ano todo, custa na melhor
das hipóteses, dois milhões de dólares” (HERZ, p.220, 2009).
O Brasil e o mundo estão em efervescência. A tensão é
crescente com revoluções vitoriosas na China e em Cuba. A luta pela
independência e soberania das nações cresce em todos continentes e os EUA
colocam em marcha golpes militares por todo o planeta. A Guerra Fria está em um
ponto agudo.
É nesse quadro que a Comissão de Assuntos Estrangeiros do
Congresso dos EUA, em abril de 1964, no relatório “Winning the Cold War. The
O.S. Ideological Offensive” define:
“Por muitos anos os poderes militar e econômico, utilizados
separadamente ou em conjunto, serviram de pilares da diplomacia. Atualmente
ainda desempenham esta função, mas o recente aumento da influência das massas
populares sobre os governos, associado a uma maior consciência por parte dos
líderes no que se refere às aspirações do povo, devido às revoluções
concomitantes do século XX, criou uma nova dimensão para as operações de
política externa. Certos objetivos dessa política podem ser colimados
tratando-se diretamente com o povo dos países estrangeiros, em vez de tratar
com seus governos. Através do uso de modernos instrumentos e técnicas de
comunicação, pode-se hoje em dia atingir grupos numerosos ou influentes nas
populações nacionais – para informá-los, influenciar-lhes as atitudes e, às
vezes, talvez, até mesmo motivá-los para uma determinada linha de ação. Esses
grupos, por sua vez, são capazes de exercer pressões notáveis e até mesmo
decisivas sobre seus governos” (SCHILLER, p.23, 1976).
A ordem estava dada: “informar”, influenciar e motivar. A
rede está montada, o financiamento definido.
O jornalista e grande nacionalista, Genival Rabelo,
exatamente nesta hora, denuncia no jornal Tribuna da Imprensa do Rio de
Janeiro: “Há, por trás do grupo (Abril), recursos econômicos de que não dispõem
as editoras nacionais, porém muito mais importante do que isso está o apoio
maciço que a indústria e as agências de publicidade americanas darão ao próximo
lançamento do Sr. Victor Civita, a exemplo do que já fizeram com as suas 18
publicações em circulação, bem como as revistas do grupo norte-americano Vision
Inc.” (RABELO, p.38, 1966)
Mas é necessário mais. É preciso enfraquecer, calar e
quebrar tudo que seja contrário aos interesses dos monopólios, tudo que possa
prejudicar os interesses das corporações. A General Eletric, General Motors,
Ford, Standard Oil, DuPont, IBM, Dow Chemical, Monsanto, Motorola, Xerox,
Jonhson & Jonhson e seus bancos J. P. Morgan, Citibank, Chase Manhattan
precisam estar seguros para praticar sua concorrência desleal, para remeter
lucros sem controle, para desnacionalizar as riquezas do país se apossando das
reservas minerais.
Várias são as declarações, nesta época, que deixam claro
qual o caminho traçado pelos EUA. Nas palavras de Robert Sarnoff, presidente da
RCA – Radio Corporation of America – “a informação se tornará um artigo de
primeira necessidade equivalente a energia no mundo econômico e haverá de
funcionar como uma forma de moeda no comércio mundial, convertível em bens e
serviços em toda parte” (SCHILLER, p.18, 1976). Já a Comissão Federal de
Comunicações (FCC), em informe conjunto dos Ministérios do Exterior, Justiça e
Defesa, afirmava: “as telecomunicações evoluíram de suporte essencial de nossas
atividades internacionais para ser também um instrumento de política externa”
(SCHILLER, p.24, 1976).
É esclarecedor o pensamento do delegado dos Estados Unidos
nas Nações Unidas, vice-ministro das Relações Exteriores, George W. Ball, em
pronunciamento na Associação Comercial de Nova Iorque:
“Somente nos últimos vinte anos é que a empresa
multinacional conseguiu plenamente seus direitos. Atualmente, os limites entre
comércio e indústria nacionais e estrangeiros já não são muito claros em muitas
empresas. Poucas coisas de maior esperança para o futuro do que a crescente
determinação do empresariado americano de não mais considerar fronteiras
nacionais como demarcação do horizonte de sua atividade empresarial” (SCHILLER,
p.27, 1976).
A ação desencadeada pelos interesses externos já havia
produzido a falência de muitos órgãos de imprensa nacionais e, por outro lado,
despertado a consciência de muitos brasileiros de como os monopólios utilizam
seu poder de pressão e de chantagem. Em 1963, o publicitário e jornalista
Marcus Pereira afirmava em debate na TV Tupi, em São Paulo: “Em última análise,
a questão envolve a velha e romântica tese da liberdade de imprensa, tão velha
como a própria imprensa. Acontece que a imprensa precisa sobreviver, e, para
isso, depende do anunciante. Quando esse anunciante é anônimo, pequeno e
disperso não pode exercer pressão, por razões óbvias. É o caso das seções de
‘classificados’ dos jornais. Mas poucos jornais têm ‘classificados’ em
quantidade expressiva. A maioria dos jornais e a totalidade das revistas vivem
da publicidade comercial e industrial, dos chamados grandes anunciantes. Acho
que posso parar por aqui, porque até para os menos afoitos já adivinharam a
conclusão” (RABELO, p.56, 1966).
Não é difícil perceber o quanto a submissão aos interesses
econômicos estrangeiros levou a dita “grande mídia” brasileira a se afastar da
nação. A se tornar, ao longo dos anos, em uma peça chave da política do
Imperialismo. Em praticamente todos os principais momentos da vida nacional se
inclinaram para o golpismo e a traição. Já no primeiro golpe contra Getúlio,
depois, contra sua eleição, contra sua posse, contra a criação da Petrobrás,
contra a eleição de Juscelino, contra João Goulart, contra as reformas de base,
apoiando a Ditadura, apoiando a política econômica de Collor, apoiando Fernando
Henrique e suas privatizações, atacando Lula.
Hoje, ela novamente tem lado: o das concessões de estradas,
portos e aeroportos, o dos leilões de privatização do petróleo e da necessidade
da elevação das taxas de juros, do controle do déficit público com evidentes
restrições aos investimentos governamentais, ou seja, da aceitação de um
neoliberalismo tardio.
Porque atuam desta forma? Genival Rabelo deu a resposta: “Um
industrial inteligente desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro me fez
outro dia, esta observação, em forma de desafio: ‘Dou-lhe um doce, se nos
últimos cinco anos você pegar uma edição de O Globo que não estampe na primeira
página uma notícia qualquer da vida americana, dos feitos americanos, da
indústria americana, do desenvolvimento científico americano, das vitórias e
bombardeios americanos. A coisa é tão ostensiva que, muita vez, sem ter o que publicar
sobre os Estados Unidos na primeira página, estando o espaço reservado para
esse fim, o secretário do jornal abre manchete para a volta às aulas na cidade
de Tampa, Miami, Los Angeles, Chicago ou Nova Iorque. Você não encontra a volta
às aulas em Paris, Nice, Marselha, ou outra cidade qualquer da França, na
primeira pagina de O Globo, porque, de fato, isso não interessa a ninguém.
Logo, não pode deixar de haver dólar por trás de tudo isso...’ Outro amigo
presente, no momento, e sendo homem de publicidade concluiu, deslumbrado com
seu próprio achado: ‘É por isso que O Globo não aceita anúncio para a primeira
página. Ela já está vendida. É isso. É isso!’. ‘E muito bem vendida, meu caro –
arrematou o industrial – A peso de ouro’ ” (RABELO, p.258, 1966).
(Leandro Severo foi delegado à Conferência Nacional de Comunicação,
Secretário Municipal de Comunicação em São Carlos entre 2007 e 2012 e membro do
Partido Pátria Livre.)
Referências:
COLBY, G; DENNETT, C. Seja feita a vossa vontade: a
conquista da Amazônia, Nelson Rockefeller e o evangelismo na idade do Petróleo.
Tradução: Jamari França. Rio de Janeiro: Record, 1998.
HERZ, D. A história secreta da Rede Globo. Porto Alegre: Dom
Quixote, 2009. Coleção Poder, Mídia e Direitos Humanos.
RABELO, G. O Capital Estrangeiro na Imprensa Brasileira. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
SCHILLER, H. I. O Império norte-americano das comunicações.
Tradução: Tereza Lúcia Halliday Petrópolis: Vozes, 1976.
Fim
sexta-feira, 31 de maio de 2013
CONSPIRAÇÃO CONTRA A PÁTRIA
O Jornal do Brasil mantém a confiança na chefia do Estado Democrático
Editorial do Jornal do Brasil 30 de maio de 2013
O mundo inteiro passa por uma crise econômica e social, decorrente da ganância dos banqueiros, que controlam o valor das moedas, o fluxo de crédito, o preço internacional das commodities. Diante deles, os governos se sentem amedrontados, ou cúmplices, conforme o caso e poucos resistem.
A União Europeia desmantela-se: o fim do estado de bem-estar, o corte nos orçamentos sociais, a desconfiança entre os países associados, a indignação dos cidadãos e a incapacidade dos governantes em controlar politicamente a crise, que tem a sua expressão maior no desemprego e na pauperização de povos. Se não forem adotadas medidas corajosas contra os grandes bancos, podemos esperar o caos planetário, que a irresponsabilidade arquiteta.
A China, exposta como modelo de crescimento, é o caso mais desolador de crescente desigualdade social no mundo, com a ostentação de seus bilionários em uma região industrializada e centenas de milhões de pessoas na miséria no resto do país. Isso sem falar nas condições semiescravas de seus trabalhadores – já denunciadas como sendo inerentes ao “Sistema Asiático de Produção”. Os Estados Unidos, pátria do capitalismo liberal e neoliberal, foram obrigados a intervir pesadamente no mercado financeiro a fim de salvar e reestruturar bancos e agências de seguro, além de evitar a falência da General Motors.
Neste mundo sombrio, o Brasil se destaca com sua política social. Está eliminando, passo a passo , a pobreza absoluta, ampliando a formação universitária de jovens de origem modesta, abrindo novas fronteiras agrícolas e obtendo os menores níveis de desemprego de sua história.
Não obstante esses êxitos nacionais, o governo está sob ataque histérico dos grandes meios político-financeiros. Na falta de motivo, o pretexto agora é a inflação. Ora, todas as fontes demonstram que a inflação do governo anterior a Lula foi muito maior que nos últimos 10 anos.
O Jornal do Brasil, fiel a sua tradição secular, mantém a confiança na chefia do Estado Democrático e denúncia, como de lesa-pátria, porque sabota a economia, a campanha orquestrada contra o Governo – que lembra outros momentos de nossa história, alguns deles com desfecho trágico e o sofrimento de toda a nação.
fim
Confira no link: http://www.jb.com.br/opiniao/noticias/2013/05/30/conspiracao-contra-a-patria/
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Ataque sem precedentes ao sindicalismo nas Américas
Por Artur Henrique
Não e só na Europa que o Estado de Bem-Estar social, os sindicatos e os direitos dos trabalhadores vêm sendo atacados. Em recente viagem por vários países das Américas pudemos ver de perto a difícil situação dos sindicatos progressistas e democráticos, atacados sistematicamente por governos de direita e empresas.
Nos EUA, em diversos estados governados pela direita, ou no Canadá, que tem um governo conservador, assistimos uma campanha contra a existência dos sindicatos. A mudança que vem sendo proposta na legislação sindical daqueles países tem como tema: “O Direito ao Trabalho”.
À primeira vista, para nós brasileiros, ler essa frase pode nos fazer acreditar que se trata de uma campanha para fortalecer a luta dos trabalhadores (as). Mas se trata na verdade da mais bem orquestrada campanha já realizada contra a existência dos sindicatos. E com o apoio institucional de governos, e com o uso de ferramentas de marketing e publicidade. Ou seja, uma campanha aberta, nada velada.
A campanha tem como objetivo reforçar o individualismo dos trabalhadores e atacar o papel dos sindicatos e das negociações coletivas. O tal “direito ao trabalho” quer dizer: você tem direito a trabalhar sem a “interferência” de um sindicato; você tem o direito de trabalhar quanto tempo você quiser, sem precisar cumprir uma jornada máxima; você tem o direito de “trabalhar” durante suas férias sem ser pago por isso; você tem o “direito” de trabalhar logo depois de ter um (a) filho (a), se esta for a “sua vontade”, e por aí vai.
Ou seja, a mensagem é de que o sindicato atrapalha, não devia existir. A negociação coletiva e os direitos dos trabalhadores deveriam ser decididos por você, individualmente. “Nós” não precisamos “deles”, dos sindicatos, vamos acabar com “eles”. Em se tratando de uma nação em que a legislação trabalhista é totalmente precária – lá não existe, por exemplo, licença-maternidade –, isso configura um escândalo, no mínimo.
O mesmo ataque acontece no México e na Nicarágua, de uma forma um pouco diferente – com toques de filme de gângster – mas com o mesmo objetivo. Nesses países, ouvimos em todos os lugares o conceito de “acordos de proteção”. Mais uma vez, somos levados a imaginar que poderia ser uma campanha em favor dos trabalhadores.
Mas não é nada disso. Trata-se de “proteção” para as empresas contra os sindicatos livres, democráticos e representativos. Se você for um empresário que tem interesse em instalar uma fabrica ou comercio nesses países, pode procurar antecipadamente um “protetor” e fazer um acordo em troca de dinheiro ou outros favores.
Esse “protetor” pode ser um advogado, um escritório, ou mesmo um sindicato fantasma, pelego, que vai “te proteger”, inclusive de forma física e armada, se for o caso, do “perigo” dos sindicatos combativos. De forma fictícia, antes de as operações comerciais terem início, a futura empresa fecha acordos ditos coletivos, a portas fechadas, com esses “protetores”, o que inviabiliza qualquer ação sindical real quando o empreendimento começar a funcionar. Isso significa falta de direitos, de proteção, de salários dignos.
No México, alguns casos são históricos e simbólicos desse ataque:
No caso dos eletricitários, existia um acordo coletivo para os 40 mil trabalhadores da empresa estatal de energia firmado com o sindicato nacional da categoria, um dos mais importantes do país. O governo então resolveu mudar o nome da empresa (com isso a empresa nova deixa de ter sindicato), demitir todos os trabalhadores e passar a fazer o serviço com outras empresas, com o único e claro objetivo de destruir o sindicato, que continua na luta jurídica e política para recuperar seus direitos.
Já no sindicato dos mineiros, a postura de empresas e governos conservadores e de direita levou à morte de quatro dirigentes sindicais e a expulsão do país do presidente da entidade, que há sete anos vive no Canadá. A denúncia está ainda aguardando encaminhamento na Comissão de Direitos Humanos da OEA e, portanto, a luta continua.
Em todos esses países, centrais sindicais como a UNT-Mexico, a CLC do Canadá, a AFL-CIO dos EUA, filiados à CSA (Confederação Sindical das Américas) e sindicatos independentes vêm se mobilizando para contra-atacar, construir unidade e fortalecer a luta dos trabalhadores e de seus sindicatos. São campanhas publicitárias, pressão sobre deputados e senadores nas suas bases eleitorais, mobilizações de rua, etc.
Para além da solidariedade internacional, que é fundamental nessa luta, a CUT, através do IC-CUT (Instituto de Cooperação da CUT) propôs, em todos os encontros que tivemos com nossos parceiros nesses países, que devemos realizar uma grande campanha continental em defesa da liberdade de organização sindical.
Devemos construir uma grande unidade em torno dessa bandeira, da mesma forma que por razões diferentes nos juntamos na luta vitoriosa contra a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).
Atuar juntos na OIT, na Comissão de Direitos Humanos da OEA, nas reuniões do G-20, nos encontros internacionais de ministros do Trabalho, de presidentes dos nossos países, criar tribunais internacionais independentes, denunciar empresas e fazer uma lista “suja” daquelas que atacam os direitos dos trabalhadores em todo o mundo.
É uma luta em defesa da democracia e da liberdade. Afinal, todo trabalhador tem direito de se organizar livremente em um sindicato e ter direito à negociação coletiva para melhorar as condições de trabalho e de vida, conforme disposto na Convenção 87 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Temos que praticar a solidariedade internacional e reafirmar que enquanto um trabalhador e seu sindicato estiverem sendo atacado no mundo, não descansaremos e estaremos juntos na luta para defendê-lo.
Artur Henrique é secretário-adjunto de Relações Internacionais da CUT, presidente do IC-CUT e vice-presidente da CSA
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
De papa a papa
por Janio de Freitas
O Vaticano é a grande caixa-preta, a maior e mais duradoura de todos os tempos. Sua vida interior só pôde ser sondada, até hoje, por especulações, por combinação de mínimas certezas factuais com hipóteses à vontade dos autores.
Os antecedentes da renúncia de Bento 16 (grafia adotada pela Folha para o nome oficial Bento XVI) e seu próprio papado não prometem melhor destino informativo.
Minha curiosidade concentrou-se, há tempos, em um ponto mais modesto, e, ainda assim, não menos irrespondido. Bento 16 é reconhecido como intelectual de alto nível e, ainda, com talento político comprovado por seus mais de 50 anos bem-sucedidos nas lutas ferinas no Vaticano.
Como foi possível que não buscasse alguma fórmula doutrinária de convivência da igreja com os aspectos da modernidade avessos à doutrina católica? Sua fixação foi bater de frente, incitar a intolerância, fazer acusações graves, a exemplo da atribuição, aos usuários de camisinha, de maior disseminação da Aids.
Bento 16 não cuidou de proteger a doutrina do seu rebanho, argumento muito propalado. Antes preferiu fazer a igreja investir contra grande segmento desse rebanho, ansioso por maior compreensão, e contra todos os demais.
Um dos momentos grandiosos da face pacífica do século passado deu-se em 1962. Foi o Concílio Vaticano 2º (nome oficial: Vaticano II). Convocado pelo ex-cardeal de Veneza, Angelo Roncalli, apenas três meses depois de tornar-se em 1959 o papa João 23 (ou, como escolheu, João XXIII), o concílio foi por ele levado a fazer a igreja reconhecer-se como parte do mundo dos homens e a reconhecê-los todos, sem distinção de espécie alguma.
O milenar estigma mantido pela Igreja Católica contra os judeus, precursor não letal, mas socialmente venenoso, daquele que vicejaria na Alemanha, na Rússia e em tantos países mais, cedeu à conciliação não só com os judeus, mas com as outras igrejas católicas, com os protestantes em geral, com as crenças e ritos ditos “primitivos”, com os casos de Estado antirreligioso e com todo obscurantismo.
OBSCURO LATIM
O ecumenismo ganhou o mundo. Os católicos mesmos ganharam de volta a sua igreja, capazes de entender a missa e os seus ritos agora rezados em suas línguas, e não mais no obscuro latim. E com os celebrantes não mais de costas para os fiéis. A igreja reconhecia a humanidade. E os direitos humanos.
O teólogo Joseph Ratzinger foi um dos produziram, no Vaticano 2º, os documentos doutrinários inspirados pelo “papa Buono” e pelos cardeais que o acompanharam no “aggiornamento” -a atualização da Igreja Católica apesar da resistência, nas palavras de João 23, “dos que só veem no mundo moderno traição e ruína”. Referia-se aos “consumidos pelo fervor” mas “de escassa razão e ponderação”.
A ação de João 23 foi tão significativa que abriu uma crise no comunismo internacional: encabeçada pelos grandes PCs da França e da Itália, numerosa e expressiva corrente dos comunistas incorporou o espírito reformista do Concílio Vaticano 2º, exprimindo-o, por todo o mundo, inclusive em “best-sellers” como “Do Anátema ao Diálogo”, do filósofo comunista francês Roger Garaudy.
O Concílio Vaticano 2º fez seu cinquentenário no ano passado. A Igreja Católica, em especial o Vaticano, e, em particular, o papa Bento 16, não lhe dedicaram nenhuma celebração. Ah, mas não o esqueceram. Antes que o ano findasse, Bento 16 e a Cúria Romana restabeleceram o uso do latim –completaram o retrocesso feito pelo papado de João Paulo 2º e seu culto à personalidade.
*Publicado na Folha de São Paulo
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
O comunismo ético e humanitário de Oscar Niemeyer
Por Leonardo Boff
(07/12/2012)
Não tive muitos encontros com Oscar Niemeyer. Mas os que tive foram longos e densos. Que falaria um arquiteto com um teólogo senão sobre Deus, sobre religião, sobre a injustiça dos pobres e sobre o sentido da vida?
Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus. Invejava-me que, me tendo por inteligente (na opinião dele) ainda assim acreditava em Deus, coisa que ele não conseguia. Mas eu o tranquilizava ao dizer: o importante não é crer ou não crer em Deus. Mas viver com ética, amor, solidariedade e compaixão pelos que mais sofrem. Pois, na tarde da vida, o que conta mesmo são tais coisas. E nesse ponto ele estava muito bem colocado. Seu olhar se perdia ao longe, com leve brilho.
Impressionou-se sobremaneira, certa feita, quando lhe disse a frase de um teólogo medieval:
“Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”. E ele retrucou: “mas que significa isso?” Eu respondi: “Deus não é um objeto que pode ser encontrado por ai; se assim fosse, ele seria uma parte do mundo e não Deus”. Mas então, perguntou ele: “que raio é esse Deus?” E eu, quase sussurrando, disse-lhe:
“É uma espécie de Energia poderosa e amorosa que cria as condições para que as coisas possam existir; é mais ou menos como o olho: ele vê tudo mas não pode ver a si mesmo; ou como o pensamento: a força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. E ele ficou pensativo. Mas continuou: “a teologia cristã diz isso?”
Eu respondi: “diz mas tem vergonha de dizê-lo, porque então deveria antes calar que falar; e vive falando, especialmente os Papas”. Mas consolei-o com uma frase atribuída a Jorge Luis Borges, o grande argentino:
"A teologia é uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”. Achou muita graça. Mais graça achou com uma bela trouvaille de um gari do Rio, o famoso “Gari Sorriso: “Deus é o vento e a lua; é a dinâmica do crescer; é aplaudir quem sobe e aparar quem desce”. Desconfio que Oscar não teria dificuldade de aceitar esse Deus tão humano e tão próximo a nós.
Mas sorriu com suavidade. E eu aproveitei para dizer: “Não é a mesma coisa com sua arquitetura? Nela tudo é bonito e simples, não porque é racional mas porque tudo é inventado e fruto da imaginação”. Nisso ele concordou adiantando que na arquitetura se inspira mais lendo poesia, romance e ficção do que se entregando a elucubrações intelectuais. E eu ponderei: “na religião é mais ou menos a mesma coisa: a grandeza da religião é a fantasia, a capacidade utópica de projetar reinos de justiça e céus de felicidade.
E grande pensadores modernos da religião como Bloch, Goldman, Durkheim, Rubem Alves e outros não dizem outra coisa: o nosso equívoco foi colocar a religião na razão quando o seu nicho natural se encontra no imaginário e no princípio esperança. Ai ela mostra a sua verdade. E nos pode inspirar um sentido de vida.”
Para mim a grandeza de Oscar Niemeyer não reside apenas na sua genialidade, reconhecida e louvada no mundo inteiro. Mas na sua concepção da vida e da profundidade de seu comunismo. Para ele “a vida é um sopro”, leve e passageiro. Mas um sopro vivido com plena inteireza. Antes de mais nada, a vida para ele não era puro desfrute, mas criatividade e trabalho. Trabalhou até o fim, como Picazzo, produzindo mais de 600 obras. Mas como era inteiro, cultivava as artes, a literatura e as ciências. Ultimamente se pôs a estudar cosmologia e física quântica. Enchia-se de admiração e de espanto diante da grandeur do universo.
Mas mais que tudo cultivou a amizade, a solidariedade e a benquerença para com todos. “O importante não é a arquitetura” repetia muitas vezes, “o importante é a vida”. Mas não qualquer vida; a vida vivida na busca da transformação necessária que supere as injustiças contra os pobres, que melhore esse mundo perverso, vida que se traduza em solidariedade e amizade. No JB de 21/04/2007 confessou: ”O fundamental é reconhecer que a vida é injusta e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vive-la melhor”.
Seu comunismo está muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido nos Atos dos Apóstolos nos capítulos 2 e 4. Ai se diz que “os cristãos colocavam tudo em comum e que não havia pobres entre eles”. Portanto, não era um comunismo ideológico mas ético e humanitário: compartilhar, viver com sobriedade, como sempre viveu, despojar-se do dinheiro e ajudar a quem precisasse. Tudo deveria ser comum. Perguntado por um jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu coerentemente: “aceitaria se fosse para todo mundo; não quero a imortalidade só para mim”.
Um fato ficou-me inesquecível. Ocorreu nos inícios dos anos 80 do século passado. Estando Oscar em Petrópolis, me convidou para almoçar com ele. Eu havia chegado naquele dia de Cuba, onde, com Frei Betto, durante anos dialogávamos com os vários escalões do governo (sempre vigiados pelo SNI), a pedido de Fidel Castro, para ver se os tirávamos da concepção dogmática e rígida do marxismo soviético.
Eram tempos tranquilos em Cuba que, com o apoio da União Soviética, podia levar avante seus esplêndidos projetos de saúde, de educação e de cultura. Contei que, por todos os lados que tinha ido em Cuba, nunca encontrei favelas mas uma pobreza digna e operosa. Contei mil coisas de Cuba que, segundo frei Betto, na época era “uma Bahia que deu certo”. Seus olhos brilhavam. Quase não comia. Enchia-se de entusiasmo ao ver que, em algum lugar do mundo, seu sonho de comunismo poderia, pelo menos em parte, ganhar corpo e ser bom para as maiorias.
Qual não foi o meu espanto quando, dois dias após, apareceu na Folha de São Paulo, um artigo dele com um belo desenho de três montanhas, com uma cruz em cima. Em certa altura dizia: “Descendo a serra de Petrópolis ao Rio, eu que sou ateu, rezava para o Deus de Frei Boff para que aquela situação do povo cubano pudesse um dia se realizar no Brasil”. Essa era a generosidade cálida, suave e radicalmente humana de Oscar Niemeyer.
Guardo uma memória perene dele. Adquiri de Darcy Ribeiro, de quem Oscar era amigo-irmão, uma pequeno apartamento no bairro do Alto da Boa-Vista, no Vale Encantando. De lá se avista toda a Barra da Tijuca até o fim do Recreio dos Bandeirantes. Oscar reformou aquele apartamento para o seu amigo, de tal forma que de qualquer lugar que estivesse, Darcy (que era pequeno de estatura), pudesse ver sempre o mar. Fez um estrado de uns 50 centrímetros de altura E como não podia deixar de ser, com uma bela curva de canto, qual onda do mar ou corpo da mulher amada. Ai me recolho quando quero escrever e meditar um pouco, pois um teólogo deve cuidar também de salvar a sua alma.
Por duas vezes se ofereceu para fazer uma maquete de igrejinha para o sítio onde moro em Araras em Petrópolis. Relutei, pois considerava injusto valorizar minha propriedade com uma peça de um gênio como Oscar. Finalmente, Deus não está nem no céu nem na terra, está lá onde as portas da casa estão abertas.
A vida não está destinada a desaparecer na morte mas a se transfigurar alquimicamente através da morte. Oscar Niemeyer apenas passou para o outro lado da vida, para o lado invisível. Mas o invisível faz parte do visível. Por isso ele não está ausente, mas está presente, apenas invisível. Mas sempre com a mesma doçura, suavidade, amizade, solidariedade e amorosidade que permanentemente o caracterizaram.
E de lá onde estiver, estará fantasiando, projetando e criando mundos belos, curvos e cheios de leveza.
Fim
(http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/07/o-comunismo-etico-e-humanitario-de-oscar-niemeyer/)
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Um golpe de Estado oculto
Por Renato Guimarães,
do blog Mirante
Quando se fala num
golpe de Estado em andamento no Brasil, as pessoas de modo geral
pensam num modelo “clássico”, com deposição do presidente. É
assim que os golpistas preferem, claro. Vivemos hoje, entretanto, um
processo diverso de golpe de Estado, que tem a forma de esvaziamento
do Poder Executivo.
Na verdade, esse é um
processo que vem de há quase 30 anos, desde o final da ditadura
militar. O que há de novo hoje é que ele ganha ritmo acelerado.
Houve um tempo em que o
Executivo era o senhor dos poderes. Lembro um episódio que ilustra
bem isso. Em 1958, era eu jornalista em Última Hora, quando Samuel
Wainer me pôs num DC3 da FAB com destino a Brasília,às vésperas
da inauguração do Alvorada, para entrevistar o presidente
Kubitschek.
A entrevista ocorreu numa varanda do palácio, ao cair da noite, com o presidente acomodado numa poltrona, as pernas esticadas para descansar os pés na mesa baixa. Entre minhas perguntas, a certa altura soltei (cito de memória, mas quem tiver a coleção do jornal pode conferir):
A entrevista ocorreu numa varanda do palácio, ao cair da noite, com o presidente acomodado numa poltrona, as pernas esticadas para descansar os pés na mesa baixa. Entre minhas perguntas, a certa altura soltei (cito de memória, mas quem tiver a coleção do jornal pode conferir):
- Presidente, a maioria
da imprensa hostiliza a construção de Brasília, muitos bancos e
empresas de capital privado e grande número de funcionários do
Estado dizem que não virão para a nova capital. O que o senhor
pensa fazer quanto a isso?
Ele abriu o sorriso
largo que o caracterizava e respondeu:
- Não se preocupe, eu
trago o Banco do Brasil para cá e todo mundo vem atrás.
E assim aconteceu. O
Banco do Brasil comandava a economia e o presidente comandava o Banco
do Brasil, além de ter a caneta para nomear e demitir milhares de
dirigentes de cargos públicos. O presidente personificava o poder do
Estado.
É verdade que aquela
entrevista acontecia poucos anos depois do suicídio de Vargas, na
sequência de um processo de golpe de que participaram os comandos
militares. O Executivo era o poder maior, mas eventualmente, dentro
dele, os militares atropelavam o presidente. O próprio suicídio de
Vargas concorreu entretanto para neutralizar aquele golpe, suscitando
a ira popular e alentando as correntes militares mais sensíveis ao
sentimento democrático. Houve em 1955 a eleição de Kubitschek, em
seguida o contragolpe encabeçado pelo general Lott para
assegurar-lhe a posse, e até 1964 os brasileiros puderam respirar
num regime de respeito à Constituição.
A ditadura militar
favoreceu uma concentração ainda maior do poder no Executivo,
embora, principalmente nos primeiros anos, este tenha ficado mais
submisso ao governo dos Estados Unidos. Após a ditadura,
principalmente nos governos Collor e Cardoso, com a predominância da
política neoliberal do chamado “Consenso de Washington”, o Poder
Executivo foi progressivamente enquadrado pelo capital financeiro,
onde é franco o domínio de interesses imperialistas. Foi um
fenômeno que se deu aliás em escala mundial: buscava-se tornar
irrelevante o resultado de eleições, de modo a manter a estrutura
do poder em mãos de tecnocratas da confiança do capital
imperialista.
Nisso, foi importante no Brasil, em particular, a perda de substância do Ministério da Fazenda e do Banco do Brasil no comando da política monetária e cambial, paralelamente à instituição do Banco Central, cuja ação se descolou da autoridade do presidente da República. De órgão subordinado a um ministério, o Banco Central adquiriu de fato – não na lei – status de órgão autônomo, sobre o qual nem o presidente da República tinha ingerência. Não por acaso, nele se instalou, soberano, um brasileiro ex-funcionário do Banco de Boston nos Estados Unidos, ao qual esse expoente de Wall Street continuava a pagar gordo salário, a título de aposentadoria.
Com o processo
avassalador de privatizações que dilapidou o patrimônio do Estado
nos anos 1990, a economia do país passou a ser comandada diretamente
por interesses de poderosos grupos privados, entre os quais
predominam os estrangeiros, através do Banco Central e de agências
reguladoras sob influência do capital financeiro. Basicamente, o
país passou a trabalhar para pagar juros altos de dívida pública
aos bancos privados e pagar pelos danos pesados de desnacionalização
decorrentes de uma taxa de câmbio sobrevalorizada.
O governo Lula, em seu
segundo mandato, deu início a uma recuperação do poder perdido da
Presidência da República. No governo Dilma essa recuperação pôde
avançar de modo mais significativo, com a autoridade presidencial se
fazendo novamente valer sobre o Banco Central, para conseguir redução
na taxa de juros e melhoria para o país na política de câmbio.
Mas a direita volta
agora à carga para recuperar esse terreno que perdeu. Investe em uma
tentativa de golpe de Estado que tem por objetivo sempre esvaziar e
imobilizar o Poder Executivo, mas traz a novidade de fazer isso
através do debilitamento também do Poder Legislativo e da inflação
do Poder Judiciário, representado pelo STF, que ela tenta cooptar,
com apoio ostensivo e até agressivo da mídia empresarial
monopolista.
Já no julgamento do
processo 470, ao erigir-se em crítico das práticas de aliança
política vigentes, sob o argumento não provado – até porque o
Tribunal se desobrigou da exigência de prova para condenação –
de que foram usados expedientes criminosos, o STF exerceu
indiretamente coação sobre o Congresso, com o notório efeito de
embaraçar a possibilidade de alianças políticas para o Executivo
atual e a governabilidade do país. Agora, a pressão ganha em
escala, com o assalto ensaiado no Tribunal à prerrogativa
constitucional do Congresso de cassar mandatos de parlamentares.
O esforço da mídia
monopólica para alçar o STF à categoria de superpoder e alçar
determinado juiz à imagem de justiceiro implacável, herói e líder
da redenção nacional, é artifício capaz de nos levar a um golpe
reacionário de tipo fascista, embalado pelo moralismo pelo qual a
classe média costumeiramente se deixa atrair. Nunca será demais
lembrar que o próprio PCB, em sua fase mais estoica, embarcou em
campanha desse tipo, no segundo governo Vargas, até perceber seu
erro, com a súbita e dramática revelação que o país recebeu do
suicídio do presidente, e postar-se à frente da revolta popular
contra o golpe de Estado.
Faz parte da manobra
golpista de hoje degradar o sentimento político da população, para
torná-la indiferente à defesa das liberdades civis. A execração
pública pelo pela mídia mercantil, com benção do STF, de
combatentes da luta contra a ditadura como José Dirceu e José
Genoíno contribui para que se admita como natural e normal a tortura
como instrumento de política de Estado e a supressão dos direitos
democráticos.
Da mesma forma,
contribui para amortecer o sentimento democrático do país a
campanha para aviltar a imagem do partido e dos governantes eleitos
que ganharam legitimidade e prestígio por participarem ao lado dos
trabalhadores e do povo da luta contra a ditadura militar, se
associarem a conquistas sociais e à afirmação da soberania
nacional. Não é de estranhar, aliás, que isto ocorra por ação de
um Tribunal em que um dos juízes saiu recentemente a público em
defesa da ditadura militar, sem ser contestado por seus colegas.
Pouco a pouco, querem
criar no país um cenário no qual seja irrelevante quem é o
presidente da República. Ou no qual tirar do cargo o presidente seja
detalhe fácil, como foi há pouco no Paraguai. No qual a população
esteja preparada para uma longa noite de salazarismo obscurantista e
entreguista, com o país de novo entregue ao complexo de vira-lata de
que falava Nelson Rodrigues. Ou, se preferirem, para de novo o país
virar “um imenso Portugal”, como diz a canção de Chico Buarque,
já que Portugal parece outra vez entregar aos bancos as chaves de
seu governo e conformar-se com um destino de “austera, apagada e
vil tristeza”.
Mas isto é o que eles
querem. Lembrando Garrincha, é preciso perguntar se eles “já
conversaram com os russos”, se o povo brasileiro vai concordar.
Creio e espero que não.
fim
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Mensalão: um julgamento político
Por Mauro Santayana
O julgamento da Ação 470, que chega ao seu fim com sentenças pesadas contra quase todos os réus, corre o risco de ser considerado como um dos erros judiciários mais pesados da História. Se, contra alguns réus, houve provas suficientes dos delitos, contra outros os juízes que os condenaram agiram por dedução. Guiaram-se pelos silogismos abengalados, para incriminar alguns dos réus.
O relator do processo não atuou como juiz imparcial: fez-se substituto da polícia e passou a engenhosas deduções, para concluir que o grande responsável fora o então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Podemos até admitir, para conduzir o raciocínio, que Dirceu fosse o mentor dos atos tidos como delituosos, mas faltaram provas, e sem provas não há como se condenar ninguém.
O julgamento, por mais argumentos possam ser reunidos pelos membros do STF, foi político. Os julgamentos políticos, desde a Revolução Francesa, passaram a ser feitos na instância apropriada, que é o Parlamento. Assim foi conduzido o processo contra Luis XVI. Nele, de pouco adiantaram os brilhantes argumentos de seus notáveis advogados, Guillaume Malesherbes, François Tronchet e Deseze, que se valiam da legislação penal comum.
O julgamento era político, e feito por uma instituição política, a Convenção Nacional, que representava a nação; ali, os ritos processuais cediam lugar à vontade dos delegados da França em processo revolucionário. A tese do poder absoluto dos parlamentares para fazer justiça partira de um dos mais jovens revolucionários, Saint-Just. Ela fora aceita, entre outros, por Danton e por Robespierre, que se encarregou de expô-la de forma dura e clara, e com a sobriedade própria dos julgadores — segundo os cronistas do episódio — aos que pediam clemência e aos que exigiam o respeito ao Código Penal, já revogado juntamente com a monarquia.
“Não há um processo a fazer. Luís não é um acusado. Vocês não são juízes, vocês são homens de Estado. Vocês não têm sentenças a emitir em favor ou contra um homem, mas uma medida de segurança pública a tomar, um ato de providência nacional a exercer. Luís foi rei e a República foi fundada”. E Robespierre, implacável, explica que, em um processo normal, o rei poderia ser considerado inocente, desde que a presunção de sua inocência permanecesse até o julgamento. E arremete:
“Mas, se Luís é absolvido, o que ocorre com a Revolução? Se Luís é inocente, todos os defensores da liberdade passam a ser caluniadores”. Os fatos posteriores são conhecidos.
O STF agiu, sob aparente ira revolucionária de alguns de seus membros, como se fosse a Convenção Nacional. Como uma Convenção Nacional tardia, mais atenta às razões da direita — da Reação Thermidoriana, que executou Robespierre, Saint-Just e Danton, entre outros — do que a dos montagnards de 1789. Foi um tribunal político, mas sob o mandato de quem? Quem os elegeu? E qual deles pôde assumir, com essa grandeza, a responsabilidade do julgamento político, que assumiu o Incorruptível? E qual dos mais exacerbados poderia dizer aos outros que deviam julgar como homens de Estado, e não como juízes?
Como o Tartufo, de Molière, que via a sua razão onde a encontrasse, foram em busca da teoria do domínio do fato, doutrina que, sem essa denominação, serviu para orientar os juizes de Nurenberg, e foi atualizada mais tarde pelo jurista alemão Claus Roxin. Só que o domínio do fato, em nome do qual incriminaram Dirceu, necessita, de acordo com o formulador da teoria, de provas concretas. Provas concretas encontradas contra os condenados de Nurenberg, e provas concretas contra o general Rafael Videla e o tiranete peruano Alberto Fujimori.
E provas concretas que haveria contra Hitler, se ele mesmo não tivesse sido seu próprio juiz, ao matar-se no bunker, depois de assassinar a mulher Eva Braun e sacrificar sua mais fiel amiga, a cadela Blondi. Não havendo prova concreta que, no caso, seria uma ordem explícita do ministro a alguém que lhe fosse subordinado (Delúbio não era, Genoino, menos ainda), não se caracteriza o domínio do fato. Falta provar, devidamente, que ele cometeu os delitos de que é acusado, se o julgamento é jurídico. Se o julgamento é político, falta aos juízes provar a sua condição de eleitos pelo povo.
As provas contra Collor não o condenariam (como não condenaram) em um processo normal. Dessa condição dispunham os membros da Convenção Nacional Francesa e os parlamentares brasileiros que decidiram pelo impeachment do presidente Collor. As provas contra Collor não o condenariam (como não condenaram) em um processo normal. Ali se tratou de um julgamento político, que não se pretendeu técnico, nem juridicamente perfeito, ainda que fosse presidido pelo então presidente do STF.
A nação, pelos seus representantes, foi o tribunal. O STF é o cimo do Poder Judiciário. Sua sentença não pode ser constitucionalmente contestada, mesmo porque ele é, também, o tribunal que decide se isso ou aquilo é constitucional, ou não. A História, mais cedo do que tarde, fará a revisão desse processo, para infirmá-lo, por não atender às exigências do due process of law, nem à legitimidade para realizar um julgamento político.
O julgamento político de Dirceu, justo ou não, já foi feito pela Câmara dos Deputados, que lhe cassou o mandato.
fim
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Mensalão: julgamento do STF pode não valer
Por Luiz Flávio Gomes
Parece muito evidente que os advogados poderão tentar, junto à Comissão Interamericana, a obtenção de uma inusitada medida cautelar para suspensão da execução imediata das penas privativas de liberdade, até que seja respeitado o direito ao duplo grau de jurisdição.
Muitos brasileiros estão acompanhando e aguardando o final do julgamento do mensalão. Alguns com grande expectativa enquanto outros, como é o caso dos réus e advogados, com enorme ansiedade. Apesar da relevância ética, moral, cultural e política, essa decisão do STF – sem precedentes – vai ser revisada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, com eventual chance de prescrição de todos os crimes, em razão de, pelo menos, dois vícios procedimentais seríssimos que a poderão invalidar fulminantemente.
O julgamento do STF, ao ratificar com veemência vários valores republicanos de primeira linhagem – independência judicial, reprovação da corrupção, moralidade pública, desonestidade dos partidos políticos, retidão ética dos agentes públicos, financiamento ilícito de campanhas eleitorais etc. -, já conta com valor histórico suficiente para se dizer insuperável. Do ponto de vista procedimental e do respeito às regras do Estado de Direito, no entanto, o provincianismo e o autoritarismo do direito latino-americano, incluindo, especialmente, o do Brasil, apresentam-se como deploráveis.
No caso Las Palmeras a Corte Interamericana mandou processar novamente um determinado réu (na Colômbia) porque o juiz do processo era o mesmo que o tinha investigado anteriormente. Uma mesma pessoa não pode ocupar esses dois polos, ou seja, não pode ser investigador e julgador no mesmo processo. O Regimento Interno do STF, no entanto (art. 230), distanciando-se do padrão civilizatório já conquistado pela jurisprudência internacional, determina exatamente isso. Joaquim Barbosa, no caso mensalão, presidiu a fase investigativa e, agora, embora psicologicamente comprometido com aquela etapa, está participando do julgamento. Aqui reside o primeiro vício procedimental que poderá dar ensejo a um novo julgamento a ser determinado pela Corte
Há, entretanto, um outro sério vício procedimental: é o que diz respeito ao chamado duplo grau de jurisdição, ou seja, todo réu condenado no âmbito criminal tem direito, por força da Convenção Americana de Direitos Humanos (art. 8, 2, h), de ser julgado em relação aos fatos e às provas duas vezes. O entendimento era de que, quem é julgado diretamente pela máxima Corte do País, em razão do foro privilegiado, não teria esse direito. O ex-ministro Márcio Thomaz Bastos levantou a controvérsia e pediu o desmembramento do processo logo no princípio da primeira sessão, tendo o STF refutado seu pedido por 9 votos a 2.
O Min. Celso de Mello, honrando-nos com a citação de um trecho do nosso livro, atualizado em meados de 2009, sublinhou que a jurisprudência da Corte Interamericana excepciona o direito ao duplo grau no caso de competência originária da corte máxima. Com base nesse entendimento, eu mesmo cheguei a afirmar que a chance de sucesso da defesa, neste ponto, junto ao sistema interamericano, era praticamente nula.
Hoje, depois da leitura de um artigo (de Ramon dos Santos) e de estudar atentamente o caso Barreto Leiva contra Venezuela, julgado bem no final de 2009 e publicado em 2010, minha convicção é totalmente oposta. Estou seguro de que o julgamento do mensalão, caso não seja anulado em razão do primeiro vício acima apontado (violação da garantia da imparcialidade), vai ser revisado para se conferir o duplo grau de jurisdição para todos os réus, incluindo-se os que gozam de foro especial por prerrogativa de função.
No Tribunal Europeu de Direitos Humanos é tranquilo o entendimento de que o julgamento pela Corte Máxima do país não conta com duplo grau de jurisdição. Mas ocorre que o Brasil, desde 1998, está sujeito à jurisprudência da Corte Interamericana, que sedimentou posicionamento contrário (no final de 2009). Não se fez, ademais, nenhuma reserva em relação a esse ponto. Logo, nosso País tem o dever de cumprir o que está estatuído no art. 8, 2, h, da Convenção Americana (Pacta sunt servanda).
A Corte Interamericana (no caso Barreto Leiva) declarou que a Venezuela violou o seu direito reconhecido no citado dispositivo internacional, “posto que a condenação proveio de um tribunal que conheceu o caso em única instância e o sentenciado não dispôs, em consequência [da conexão], da possibilidade de impugnar a sentença condenatória.” A coincidência desse caso com a situação de 35 réus do mensalão é total, visto que todos eles perderam o duplo grau de jurisdição em razão da conexão.
Mas melhor que interpretar é reproduzir o que disse a Corte:
“Cabe observar, por outro lado, que o senhor Barreto Leiva poderia ter impugnado a sentença condenatória emitida pelo julgador que tinha conhecido de sua causa se não houvesse operado a conexão que levou a acusação de várias pessoas no mesmo tribunal. Neste caso a aplicação da regra de conexão traz consigo a inadmissível consequência de privar o sentenciado do recurso a que alude o artigo 8.2.h da Convenção.”
A decisão da Corte foi mais longe: inclusive os réus com foro especial contam com o direito ao duplo grau; por isso é que mandou a Venezuela adequar seu direito interno à jurisprudência internacional:
“Sem prejuízo do anterior e tendo em conta as violações declaradas na presente sentença, o Tribunal entende oportuno ordenar ao Estado que, dentro de um prazo razoável, proceda a adequação de seu ordenamento jurídico interno, de tal forma que garanta o direito a recorrer das sentenças condenatórias, conforme artigo 8.2.h da Convenção, a toda pessoa julgada por um ilícito penal, inclusive aquelas que gozem de foro especial.”
Há um outro argumento forte favorável à tese do duplo grau de jurisdição: o caso mensalão conta, no total, com 118 réus, sendo que 35 estão sendo julgados pelo STF e outros 80 respondem a processos em várias comarcas e juízos do país (O Globo de 15.09.12). Todos esses 80 réus contarão com o direito ao duplo grau de jurisdição, que foi negado pelo STF para outros réus. Situações idênticas tratadas de forma absolutamente desigual.
Indaga-se: o que a Corte garante aos réus condenados sem o devido respeito ao direito ao duplo grau de jurisdição, tal como no caso mensalão? A possibilidade de serem julgados novamente, em respeito à regra contida na Convenção Americana, fazendo-se as devidas adequações e acomodações no direito interno. Com isso se desfaz a coisa julgada e pode eventualmente ocorrer a prescrição.
Diante dos precedentes que acabam de ser citados parece muito evidente que os advogados poderão tentar, junto à Comissão Interamericana, a obtenção de uma inusitada medida cautelar para suspensão da execução imediata das penas privativas de liberdade, até que seja respeitado o direito ao duplo grau. Se isso inovadoramente viesse a ocorrer – não temos notícia de nenhum precedente nesse sentido -, eles aguardariam o duplo grau em liberdade. Conclusão: por vícios procedimentais decorrentes da baixíssima adequação da eventualmente autoritária jurisprudência brasileira à jurisprudência internacional, a mais histórica de todas as decisões criminais do STF pode ter seu brilho ético, moral, político e cultural nebulosamente ofuscado.
Fim
Leia mais: http://jus.com.br/revista/texto/22696/mensalao-julgamento-do-stf-pode-nao-valer#ixzz2CDhCkvFI
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Sentença contra Dirceu representa agressão contra o PT, a esquerda e a Constituição
Por Breno Altman
O ministro Joaquim Barbosa, relator da Ação Penal 470, praticamente concluiu sua tarefa como relator, às vésperas de assumir a presidência do STF, com um burlesco golpe de mão. Aparentemente para permitir que Ayres Britto pudesse votar na dosimetria dos dirigentes petistas, subverteu a ordem do dia e antecipou decisão sobre José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares. Apenas a voz de Ricardo Lewandovski se fez ouvir, em protesto à enésima manobra de um julgamento marcado por arbitrariedades e atropelos.
Talvez em nenhum outro momento de nossa história, ao menos em períodos democráticos, o país se viu enredado em tamanha fraude jurídica. Do começo ao fim do processo, o que se viu foi uma sucessão de atos que violaram direitos constitucionais e a própria jurisprudência do tribunal. A maioria dos ministros, por opção ideológica ou mera covardia, rendeu-se à sentença prescrita pelo baronato midiático desde que veio à tona o chamado “mensalão”.
Os arroubos de Roberto Jefferson, logo abraçados pela imprensa tradicional e parte do sistema judiciário, serviram de pretexto para ofensiva contra o governo Lula, o Partido dos Trabalhadores e a esquerda. José Dirceu e seus companheiros não foram julgados por seus eventuais malfeitos, mas porque representam a geração histórica da resistência à ditadura, da ascensão política dos pobres e da conquista do governo pelo campo progressista.
Derrotadas nas urnas, mas ainda mantendo sob seu controle os poderes fáticos da república, as elites transitaram da disputa político-eleitoral para a criminalização do projeto liderado pelos petistas. Com a mesma desfaçatez de quando procuravam os quartéis, dessa vez recorreram às cortes. Agora, como antes, articuladas por um enorme aparato de comunicação cujo monopólio é exercido por umas poucas famílias.
O STF, nessas circunstâncias, resolveu trilhar o caminho de suas piores tradições. Seus integrantes, majoritariamente, alinharam-se aos exemplos fornecidos pela extradição de Olga Benário para a Alemanha nazista, pela cassação do registro comunista em 1945 e pelo reconhecimento do golpe militar de 1964. Como nesses outros casos, rasgaram a Constituição para servir ao ódio de classe contra forças que, mesmo timidamente, ameaçam o jugo secular das oligarquias pátrias.
Garantias internacionais, como a possibilidade do duplo grau de jurisdição, foram desconsideradas desde o primeiro instante. Provas e testemunhos a favor dos réus terminaram desprezados em abundância e sem pudor, enquanto simples indícios ou ilações eram tratados como inapeláveis elementos comprobatórios. Uma teoria presidiu o julgamento, a do domínio funcional dos fatos, aplicada ao gosto do objetivo inquisitorial. Através dessa doutrina, réus poderiam ser condenados pelo papel que exerciam, sem que estivesse cabalmente demonstrados ação ou mando.
O que interessava, afinal, era forjar a narrativa de que o PT e o governo construíram maioria parlamentar através da compra de votos e do desvio de dinheiro público, sob a responsabilidade direta de seus mais graduados líderes. As contra-provas que rechaçam supostos fatos criminosos e sua autoria, fartamente apresentadas pela defesa, simplesmente foram ignoradas em um julgamento por encomenda.
Enganam-se aqueles que apostam em qualificar este processo como um problema de militantes petistas, quem sabe, injustamente condenados. José Dirceu e seus pares não foram sentenciados como indivíduos, mas porque expressavam a fórmula para colocar o PT e o presidente Lula no banco dos réus. Os discursos dos ministros Marco Aurélio de Mello, Ayres Britto e Celso de Melo não deixam dúvida disso. Não hesitaram em pisar na própria Constituição para cumprir seu objetivo.
Mesmo que eleitoralmente o procedimento venha se revelando relativamente frágil frente ao apoio popular às mudanças iniciadas em 2003, não podem ser subestimados seus efeitos. As forças conservadoras fizeram, dessa ação penal, plataforma estratégica para desgastar a autoridade do PT, fortalecer o poder judiciário perante as instituições conformadas pela soberania popular e relegitimar a função da velha mídia como procuradora moral da nação.
O silêncio diante desta agressão facilitaria as intenções de seus operadores, que se movimentam para manter sob sua hegemonia casamatas fundamentais do Estado e da sociedade. Reagir à decisão da corte suprema, porém, não é apenas ou principalmente questão de solidariedade a réus apenados de maneira injusta. A capacidade e a disposição de enfrentar essa pantomima jurídica poderão ser essenciais para o PT e a esquerda avançarem em seu projeto histórico.
fim
*Breno Altman é diretor do site Opera Mundi e da revista Samuel.
(nov2012)
sábado, 10 de novembro de 2012
Alckmin e o fanatismo do Opus Dei
Por Altamiro Borges
O candidato Geraldo Alckmin realmente parece um “picolé de chuchu”, segundo a famosa ironia de José Simão. Mas de inocente ele não tem nada. Conhece bem a história nefasta do Opus Dei e os seus métodos autoritários, tecnocráticos e “discretos” de agir batem com esta doutrina. Numerário ele não é, já que não reside nos casarões da Obra de Deus, não fez voto de castidade e, tudo indica, não usa duas vezes ao dia o cilício nas coxas (cinturão com pontas de metal) e nem a “disciplina”, outro utensílio de autoflagelação utilizado para chicotear as costas. Mas Alckmin se encaixa perfeitamente no figurino do supernumerário, o seguidor da seita com “disfarce civil” e a missão divina de conquistar poder político para o Opus Dei.
A origem fundamentalista
O Opus Dei (do latim, Obra de Deus) foi fundado em outubro de 1928, na Espanha, pelo padre Josemaría Escrivá. O jovem sacerdote de 26 anos diz ter recebido a “iluminação divina” durante a sua clausura num mosteiro de Madri. Preocupado com o avanço das esquerdas no país, este excêntrico religioso, visto pelos amigos de batina como um “fanático e doente mental”, decidiu montar uma organização ultra-secreta para interferir nos rumos da Espanha. Segundo as suas palavras, ela seria “uma injeção intravenosa na corrente sanguínea da sociedade”, infiltrando-se em todos os poros de poder. Deveria reunir bispos e padres, mas, principalmente, membros laicos, que não usassem hábitos monásticos ou qualquer tipo de identificação.
Reconhecida oficialmente pelo Vaticano em 1947, esta seita logo se tornou um contraponto ao avanço das idéias progressistas na Igreja. Em 1962, o papa João 23 convocou o Concílio Vaticano II, que marca uma viragem na postura da Igreja, aproximando-a dos anseios populares. No seu fanatismo, Escrivá não acatou a mudança. Criticou o fim da missa rezada em latim, com os padres de costas para os fiéis, e a abolição do Index Librorum Prohibitorum, dogma obscurantista do século 16 que listava livros “perigosos” e proibia sua leitura pelos fiéis. “Este concílio, minhas filhas, é o concílio do diabo”, garantiu Escrivá para alguns seguidores, segundo relato do jornalista Emílio Corbiere no livro “Opus Dei: El totalitarismo católico”.
O poder no Vaticano
Josemaría Escrivá faleceu em 1975. Mas o Opus Dei se manteve e adquiriu maior projeção com a guinada direitista do Vaticano a partir da nomeação do papa polonês João Paulo II. Para o teólogo espanhol Juan Acosta, “a relação entre Karol Wojtyla e o Opus Dei atingiu o seu êxito nos anos 80-90, com a irresistível acessão da Obra à cúpula do Vaticano, a partir de onde interveio ativamente no processo de reestruturação da Igreja Católica sob o protagonismo do papa e a orientação do cardeal alemão Ratzinger”. Em 1982, a seita foi declarada “prelazia pessoal” – a única existente até hoje –, o que no Direito Canônico significa que ela só presta contas ao papa, que só obedece ao prelado (cargo vitalício hoje ocupado por dom Javier Echevarría) e que seus adeptos não se submetem aos bispos e dioceses, gozando de total autonomia.
O ápice do Opus Dei ocorreu em outubro de 2002, quando o seu fundador foi canonizado pelo papa numa cerimônia que reuniu 350 mil simpatizantes na Praça São Pedro, no Vaticano. A meteórica canonização de Josemaría Escrivá, que durou apenas dez anos, quando geralmente este processo demora décadas e até séculos, gerou fortes críticas de diferentes setores católicos. Muitos advertiram que o Opus Dei estava se tornando uma “igreja dentro da Igreja”. Lembraram um alerta do líder jesuíta Vladimir Ledochowshy que, num memorando ao papa, denunciou a seita pelo “desejo secreto de dominar o mundo”. Apesar da reação, o papa João Paulo II e seu principal teólogo, Joseph Ratzinger, ex-chefe da repressora Congregação para Doutrina da Fé e atual papa Beto 16, não vacilaram em dar maiores poderes ao Opus Dei.
Vários estudos garantem que esta relação privilegiada decorreu de razões políticas e econômicas. No livro “O mundo secreto do Opus Dei”, o jornalista canadense Robert Hutchinson afirma que esta organização acumula uma fortuna de 400 bilhões de dólares e que financiou o sindicato Solidariedade, na Polônia, que teve papel central na débâcle do bloco soviético nos anos 90. O complô explicaria a sólida amizade com o papa, que era polonês e um visceral anticomunista. Já Henrique Magalhães, numa excelente pesquisa na revista A Nova Democracia, confirma o anticomunismo de Wojtyla e relata que “fontes da Igreja Católica atribuem o poder da Obra a quitação da dívida do Banco Ambrosiano, fraudulentamente falido em 1982”.
O vínculo com os fascistas
Além do rigoroso fundamentalismo religioso, o Opus Dei sempre se alinhou aos setores mais direitistas e fascistas. Durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936, Escrivá deu ostensivo apoio ao general golpista Francisco Franco contra o governo republicano legitimamente eleito. Temendo represálias, ele se asilou na embaixada de Honduras, depois se internou num manicômio, “fingindo-se de louco”, antes de fugir para a França. Só retornou à Espanha após a vitória dos golpistas. Desde então, firmou sólidos laços com o ditador sanguinário Francisco Franco. “O Opus Dei praticamente se fundiu ao Estado espanhol, ao qual forneceu inúmeros ministros e dirigentes de órgãos governamentais”, afirma Henrique Magalhães.
Há também fortes indícios de que Josemaría Escrivá nutria simpatias por Adolf Hitler e pelo nazismo. De forma simulada, advogava as idéias racistas e defendia a violência. Na máxima 367 do livro Caminho, ele afirma que seus fiéis “são belos e inteligentes” e devem olhar aos demais como “inferiores e animais”. Na máxima 643, ensina que a meta “é ocupar cargos e ser um movimento de domínio mundial”. Na máxima 311, ele escancara: “A guerra tem uma finalidade sobrenatural... Mas temos, ao final, de amá-la, como o religioso deve amar suas disciplinas”. Em 1992, um ex-membro do Opus Dei revelou o que este havia lhe dito: “Hitler foi maltratado pela opinião pública. Jamais teria matado 6 milhões de judeus. No máximo, foram 4 milhões”. Outra numerária, Diane DiNicola, garantiu: “Escrivá, com toda certeza, era fascista”.
Escrivá até tentou negar estas relações. Mas, no seu processo de ascensão no Vaticano, ele contou com a ajuda de notórios nazistas. Como descreve a jornalista Maria Amaral, num artigo à revista Caros Amigos, “ao se mudar para Roma, ele estimulou ainda mais as acusações de ser simpático aos regimes autoritários, já que as suas primeiras vitórias no sentido de estabelecer o Opus Dei com estrutura eclesiástica capaz de abrigar leigos e ordenar sacerdotes se deram durante o pontificado do papa Pio XII, por meio do cardeal Eugenio Pacelli, responsável por controverso acordo da Igreja com Hitler”. Um outro texto, assinado por um grupo de católicas peruanas, garante que a seita “recrutou adeptos para a organização fascista ‘Jovem Europa’, dirigida por militantes nazistas e com vínculos com o fascismo italiano e espanhol”.
Pouco antes de morrer, Josemaría Escrivá realizou uma “peregrinação” pela América Latina. Ele sempre considerou o continente fundamental para sua seita e para os negócios espanhóis. Na região, o Opus Dei apoiou abertamente várias ditaduras. No Chile, participou do regime terrorista de Augusto Pinochet. O principal ideólogo do ditador, Jaime Guzmá, era membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Na Argentina, numerários foram nomeados ministros da ditadura. No Peru, a seita deu sustentação ao corrupto e autoritário Alberto Fujimori. No México, ajudou a eleger como presidente seu antigo aliado, Miguel de La Madri, que extinguiu a secular separação entre o Estado e a Igreja Católica.
Infiltração na mídia
Para semear as suas idéias religiosas e políticas de forma camuflada, Escrivá logo percebeu a importância estratégica dos meios de comunicação. Ele mesmo gostava de dizer que “temos de embrulhar o mundo em papel-jornal”. Para isso, contou com a ajuda da ditadura franquista para a construção da Universidade de Navarra, que possuí um orçamento anual de 240 milhões de euros. Jornalistas do mundo inteiro são formados nos cursos de pós-graduação desta instituição. O Opus Dei exerce hoje forte influência sobre a mídia. Um relatório confidencial entregue ao Vaticano em 1979 pelo sucessor de Escrivá revelou que a influência da seita se estendia por “479 universidades e escolas secundárias, 604 revistas ou jornais, 52 estações de rádio ou televisões, 38 agências de publicidade e 12 produtores e distribuidoras de filmes”.
Na América Latina, a seita controla o jornal El Observador (Uruguai) e tem peso nos jornais El Mercúrio (Chile), La Nación (Argentina) e O Estado de S.Paulo. Segundo várias denúncias, ela dirige a Sociedade Interamericana de Imprensa, braço da direita na mídia hemisférica. No Brasil, a Universidade de Navarra é comandada por Carlos Alberto di Franco, numerário e articulista do Estadão, responsável pela lavagem cerebral semanal de Geraldo Alckmin nas famosas “palestras do Morumbi”. Segundo a revista Época, seu “programa de capacitação de editores já formou mais de 200 cargos de chefia dos principais jornais do país”. O mesmo artigo confirma que “o jornalista Carlos Alberto Di Franco circula com desenvoltura nas esferas de poder, especialmente na imprensa e no círculo íntimo do governador Geraldo Alckmin”.
O veterano jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, há muito denuncia a sinistra relação do Opus Dei com a mídia nacional. Num artigo intitulado “Estranha conversão da Folha”, critica seu “visível crescimento na imprensa brasileira. A Folha de S.Paulo parecia resistir à dominação, mas capitulou”. No mesmo artigo, garante que a seita “já tomou conta da Associação Nacional de Jornais (ANJ)”, que reúne os principais monopólios da mídia do país. Para ele, a seita não visa a “salvação das almas desgarradas. É um projeto de poder, de dominação dos meios de comunicação. E um projeto desta natureza não é nem poderia ser democrático. A conversão da Folha é uma opção estratégica, política e ideológica”.
A “santa máfia”
Durante seus longos anos de atuação nos bastidores do poder, o Opus Dei constituiu uma enorme fortuna, usada para bancar seus projetos reacionários – inclusive seus planos eleitorais. Os recursos foram obtidos com a ajuda de ditadores e o uso de máquinas públicas. “O Opus Dei se infiltrou e parasitou no aparato burocrático do Estado espanhol, ocupando postos-chaves. Constituiu um império econômico graças aos favores nas largas décadas da ditadura franquista, onde vários gabinetes ministeriáveis foram ocupados integralmente por seus membros, que ditaram leis para favorecer os interesses da seita e se envolveram em vários casos de corrupção, malversação e práticas imorais”, acusa um documento de católico do Peru.
A seita também acumulou riquezas através da doação obrigatória de heranças dos numerários e do dizimo dos supernumerários e simpatizantes infiltrados em governos e corporações empresariais. Com a ofensiva neoliberal dos anos 90, a privatização das estatais virou outra fonte de receitas. Poderosas multinacionais espanholas beneficiadas por este processo, como os bancos Santander e Bilbao Biscaia, a Telefônica e empresa de petróleo Repsol, tem no seu corpo gerencial adeptos do Opus.
Para católicos mais críticos, que rotulam a seita de “santa máfia”, esta fortuna também deriva de negócios ilícitos. Conforme denuncia Henrique Magalhães, “além da dimensão religiosa e política, o Opus Dei tem uma terceira face: da sociedade secreta de cunho mafioso. Em seus estatutos secretos, redigidos em 1950 e expostos em 1986, a Obra determina que ‘os membros numerários e supernumerários saibam que devem observar sempre um prudente silêncio sobre os nomes dos outros associados e que não deverão revelar nunca a ninguém que eles próprios pertencem ao Opus Dei’. Inimiga jurada da Maçonaria, ela copia sua estrutura fechada, o que frequentemente serve para encobrir atos criminosos”.
O jornalista Emílio Corbiere cita os casos de fraude e remessa ilegal de divisas das empresas espanholas Matesa e Rumasa, em 1969, que financiaram a Universidade de Navarra. Há também a suspeita do uso de bancos espanhóis na lavagem de dinheiro do narcotráfico e da máfia russa. O Opus Dei esteve envolvido na falência fraudulenta do banco Comercial (pertencente ao jornal El Observador) e do Crédito Provincial (Argentina). Neste país, os responsáveis pela privatização da petrolífera YPF e das Aerolineas Argentinas, compradas por grupos espanhóis, foram denunciados por escândalos de corrupção, mas foram absolvidos pela Suprema Corte, dirigida por Antonio Boggiano, outro membro da Opus Dei. No ano retrasado, outro numerário do Opus Dei, o banqueiro Gianmario Roveraro, esteve envolvido na quebra da Parlamat.
“A Internacional Conservadora”
O escritor estadunidense Dan Brown, autor do best seller “O Código da Vinci”, não vacila em acusar esta seita de ser um partido de fanáticos religiosos com ramificações pelo mundo. O Opus Dei teria cerca de 80 milhões de fiéis, muitos deles em cargos-chaves em governos, na mídia e em multinacionais. Henrique Magalhães garante que a “Obra é vanguarda das tendências mais conservadoras da Igreja Católica”. Num livro feito sob encomenda pelo Opus Dei, o vaticanista John Allen confessa este poderio. Ele admite que a seita possui um patrimônio de US$ 2,8 bilhões – incluindo uma luxuosa sede de US$ 60 milhões em Manhattan – e que esta fortuna serve para manter as suas instituições de fachada, como a Heights School, em Washington, onde estudam os filhos dos congressistas do Partido Republicano de George W.Bush.
Numa reportagem que tenta limpar a barra do Opus Dei, a própria revista Superinteressante, da suspeita Editora Abril, reconhece o enorme influência política desta seita. E conclui: “No Brasil, um dos políticos mais ligados à Obra é o candidato a presidente Geraldo Alckmin, que em seus tempos de governador de São Paulo costumava assistir a palestras sobre doutrina cristã ministradas por numerários e a se confessar com um padre do Opus Dei. Alckmin, porém, nega fazer parte da ordem”. Como se observa, o candidato segue à risca um dos principais ensinamentos do fascista Josemaría Escrivá: “Acostuma-se a dizer não”.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).
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